USAM SuLei - Uma Saúde para a Utilização Segura de Antimicrobianos na produção de Suínos e leite de Bovino
- Entidade líder do projeto: Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) – Universidade do Porto
- Responsável pelo projeto: João Niza Ribeiro
- Site do projeto: Visitar sítio Web
- Parceiros:
- INIAV - Instituto Nacional De Investigação Agrária e Veterinária
- DGAV - Direção Geral de Alimentação e Veterinária
- ANABLE - Associação Nacional para o Melhoramento dos Bovinos Leiteiros
- SCS - Sociedade Científica de Suinicultura Centro Nacional de Competências
- InovTechAgro
- FPAS - Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores Formigaleite, Lda
- Maria Manuela Pereira Marinho, Lda
- FENALAC - Federação Nacional das Cooperativas de Leite
- Duarte Reis & amp
- Brandão, Lda
- Pintor e Carneiro,Lda
- FEEDINOV - Associação para a Investigação e Inovação em Nutrição e Alimentação Animal
- Breve descrição:
O projeto USAM SuLei – Utilização Segura de Antimicrobianos na Produção de Suínos e Leite de Bovino, financiado no âmbito do PRR e enquadrado na Agenda de Inovação para a Agricultura 2020–2030, constituiu uma resposta estruturada ao desafio das resistências aos antimicrobianos na produção animal, em alinhamento com a abordagem Uma Só Saúde e com as metas do Pacto Ecológico Europeu.
O projeto teve como finalidade criar, validar e dinamizar um sistema integrado de apoio à decisão para a utilização prudente de antimicrobianos em explorações de suinicultura e bovinicultura leiteira, permitindo a médicos veterinários e produtores reduzir de forma sustentada o seu consumo. Para o efeito, foi desenvolvido um ecossistema digital interoperável capaz de captar, harmonizar e integrar dados de múltiplas fontes, incluindo sistemas oficiais, plataformas de gestão produtiva, sensores ambientais e registos clínicos, transformando-os em informação acionável para apoio à decisão.
Entre os principais resultados destaca-se a criação de uma plataforma digital com dashboards interativos e indicadores inovadores de consumo de antimicrobianos, saúde animal, bem-estar, biossegurança, alimentação e ambiente, proporcionando uma visão integrada e multidimensional das explorações. O projeto incluiu ainda o desenvolvimento de ferramentas específicas para reforço da qualidade e granularidade dos registos, bem como a implementação de um processo de melhoria contínua assente em Planos de Ação personalizados, acompanhados por visitas regulares e avaliações periódicas.
Em paralelo, foi concebido um sistema de Boas Práticas Integradas e realizada capacitação dirigida a médicos veterinários, produtores e técnicos, promovendo a adoção de medidas baseadas em evidência. O projeto envolveu diretamente dezenas de explorações, médicos veterinários e outros profissionais do setor, reforçando a sua relevância aplicada e a validação em contexto real.
O USAM SuLei permitiu ainda criar uma base de conhecimento de elevado valor estratégico e científico, incluindo dados articulados sobre consumo e resistência aos antimicrobianos, bem como desenvolver soluções com potencial de transferência tecnológica, contribuindo simultaneamente para a produção de evidência científica, para o apoio às políticas públicas nacionais e para a inovação no setor agropecuário.
- Identificação do problema ou oportunidade que se propõe abordar:
A resistência aos antimicrobianos (RAM) constitui um dos mais sérios desafios atuais para a saúde pública global, com impacto crescente na morbilidade, mortalidade e sustentabilidade dos sistemas de saúde e de produção animal. Na Europa, os microrganismos resistentes aos antimicrobianos são já responsáveis, anualmente, por mais de 33 mil mortes e cerca de 874 mil DALY (anos de vida ajustados por incapacidade). Acresce que o Banco Mundial estima que, na ausência de medidas eficazes, os efeitos das RAM poderão representar perdas entre 1,1% e 3,8% do Produto Interno Bruto mundial.
A evidência científica demonstra de forma consistente a associação entre o consumo de antimicrobianos (CAM) e o desenvolvimento de resistências antimicrobianas na produção agropecuária. Esta relação encontra-se amplamente documentada em diversos estudos europeus e internacionais. No contexto da monitorização do consumo de medicamentos veterinários, o sistema ESVAC (European Surveillance of Veterinary Antimicrobial Consumption) tem vindo a evidenciar uma redução global do consumo de antimicrobianos na produção animal. Contudo, subsiste ainda um percurso significativo a realizar, particularmente em Portugal, que continua a situar-se entre os cinco Estados-Membros com maior utilização de antimicrobianos na
produção pecuária.Neste enquadramento, o setor suinícola assume particular relevância, dada a necessidade urgente de alcançar reduções substanciais e sustentadas no consumo de antimicrobianos. Este setor representa cerca de 22% da produção padrão nacional de origem animal. Por sua vez, o setor da bovinicultura leiteira, embora apresente um cenário comparativamente menos preocupante do ponto de vista do CAM, contribui com aproximadamente 24% para a produção padrão nacional de origem animal, o que reforça igualmente a importância da implementação de medidas dirigidas e eficazes.
As principais organizações internacionais têm vindo a recomendar a redução do consumo de antimicrobianos na produção animal, bem como a restrição ou proibição da utilização de determinadas classes de moléculas. Neste âmbito, o grupo ad hoc AMEG da Agência Europeia de Medicamentos propôs a categorização dos antimicrobianos em quatro grupos, recomendando restrições ao uso, em produção animal, de três dessas categorias. Entre os compostos sob maior escrutínio regulatório destacam-se os antimicrobianos criticamente importantes, como as fluoroquinolonas e as cefalosporinas de terceira e quarta gerações, bem como a colistina e, mais recentemente, o óxido de zinco, cuja utilização tem vindo a ser progressivamente limitada.
Paralelamente, a Comissão Europeia estabeleceu como meta a redução em 50% das vendas de antimicrobianos destinados à produção animal, incluindo a aquacultura, até 2030. Esta meta encontra-se enquadrada no pacote legislativo relativo aos medicamentos veterinários e aos alimentos medicamentosos. Em particular, o Regulamento (UE) 2019/6 veio definir orientações mais exigentes para a prescrição e utilização de medicamentos veterinários. Em Portugal, a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária implementou, em 2022, a prescrição eletrónica médico-veterinária (PEMV) e prepara novas medidas no âmbito dos Eco-Regimes, com vista à redução do consumo total ou seletivo de antimicrobianos, incidindo sobre moléculas e formas terapêuticas específicas.
Não obstante estes avanços, mantém-se a necessidade de recolher e integrar dados mais granulares, harmonizados e obtidos ao nível da exploração pecuária, incluindo informação associada às patologias e aos contextos de utilização dos antimicrobianos. Esta necessidade é essencial para aprofundar o conhecimento sobre a relação entre consumo e resistência, melhorar a monitorização e apoiar a definição de estratégias de intervenção mais eficazes. Embora existam metodologias descritas para a recolha e análise de dados de consumo a nível nacional e ao nível das explorações, continua a ser necessário operacionalizar sistemas que transformem esses dados em instrumentos concretos de apoio à decisão.
Importa reconhecer que o recurso a antimicrobianos na produção animal é, em muitas situações, indispensável para assegurar a saúde e o bem-estar animal. Todavia, torna-se igualmente fundamental desenvolver, testar e validar programas eficazes que permitam reduzir o seu uso de forma sustentável, sem comprometer a sanidade animal nem a eficiência produtiva. Existem já exemplos internacionais bem documentados de estratégias de redução bem-sucedidas, sendo a experiência dinamarquesa particularmente relevante como referência para o desenvolvimento de novos modelos de intervenção. Neste contexto, a oportunidade consiste na criação, validação e dinamização de um sistema integrado de apoio à decisão para a utilização de antimicrobianos, assente em métodos 4.0, que permita aos médicos veterinários e aos operadores pecuários reduzir de forma sustentada o consumo de antimicrobianos e demonstrar, com base em evidência objetiva, essa redução. O sistema destina-se, por um lado, aos médicos veterinários, enquanto prescritores e responsáveis pela saúde e bem-estar animal, e, por outro, aos produtores e operadores pecuários dos setores suinícola e da bovinicultura leiteira, enquanto agentes centrais na biossegurança, gestão sanitária e implementação das medidas no terreno.
A solução proposta assenta em três pilares complementares e integrados:
- i) uma plataforma web, articulada com um sistema de informação para recolha e gestão de dados, geração de indicadores, disponibilização de dashboards interativos e incorporação de ferramentas de apoio à decisão e previsão;
- ii) um plano formal de redução do consumo de antimicrobianos, desenvolvido, testado e validado nas explorações pecuárias envolvidas;
- iii) um programa de formação e capacitação, baseado em boas práticas, orientado para a utilização eficaz das ferramentas da plataforma e para a promoção de uma utilização prudente e responsável dos antimicrobianos.
- Objetivos visados:
O projeto USAM SuLei – Utilização Segura de Antimicrobianos na Produção de Suínos e Leite de Bovino teve como objetivo global contribuir para a redução sustentada do consumo de antimicrobianos e para o controlo da resistência antimicrobiana na produção animal, através do desenvolvimento e implementação de soluções integradas, tecnológicas e organizacionais, em alinhamento com a abordagem Uma Só Saúde. No plano operacional, o projeto visou, em primeiro lugar, reduzir a incidência das principais patologias consumidoras de antimicrobianos em explorações de bovinicultura leiteira e suinicultura, promovendo uma melhoria efetiva da saúde animal, do bem-estar dos efetivos e, de forma indireta, da proteção da saúde humana e do ambiente.
Em paralelo, pretendeu-se acompanhar e reduzir o risco associado à resistência antimicrobiana, nomeadamente através da monitorização da proporção de fenótipos multirresistentes de E. coli isolados nas explorações. Um segundo eixo estratégico centrou-se em impulsionar a adaptação da produção animal a ameaças emergentes, mediante o desenvolvimento da plataforma USAM SuLei em pleno funcionamento, a integração progressiva de utilizadores e a criação de uma arquitetura robusta de interoperabilidade entre sistemas, capaz de captar, harmonizar e disponibilizar informação proveniente de múltiplas fontes relevantes para a gestão sanitária, produtiva e ambiental das explorações.
O projeto visou igualmente promover a educação e capacitação no contexto Uma Só Saúde, através da implementação de Planos de Ação para a redução do consumo de antimicrobianos nas explorações participantes, da elaboração de um Guia Integrado de Boas Práticas em matéria de resistência antimicrobiana, bem-estar animal e biossegurança, e da realização de ações de educação e formação dirigidas a médicos veterinários, produtores e outros intervenientes do setor.
Por fim, o projeto teve como objetivo específico reduzir a emergência da resistência aos antimicrobianos, através da monitorização de indicadores padronizados de utilização, designadamente as Doses Diárias Definidas Veterinárias (DDDvet) e os Tratamentos Padronizados Definidos (DCDvet), de acordo com as orientações da Agência Europeia de Medicamentos.
Desta forma, pretendeu-se assegurar uma base objetiva, harmonizada e comparável para avaliar padrões de consumo, apoiar a decisão clínica e sanitária e sustentar estratégias de redução baseadas em evidência. Em conjunto, estes objetivos procuraram não apenas responder ao desafio imediato do uso prudente de antimicrobianos na produção pecuária, mas também criar condições estruturais para uma transformação mais sustentável, digital, monitorizável e cientificamente sustentada do setor.
- Sumário do plano de ação:
O Plano de Ação do projeto USAM SuLei – Utilização Segura de Antimicrobianos na Produção de Suínos e Leite de Bovino estruturou a implementação do projeto em torno de uma abordagem integrada e multidisciplinar, orientada para a redução sustentada do consumo de antimicrobianos e para a mitigação da resistência antimicrobiana na produção animal, em alinhamento com o conceito Uma Só Saúde.
O plano assentou na articulação entre vigilância, desenvolvimento tecnológico, integração de sistemas, avaliação de indicadores, capacitação dos utilizadores e disseminação de resultados, envolvendo um consórcio alargado de entidades académicas, institucionais, setoriais e tecnológicas.
A operacionalização do projeto foi organizada em seis grandes áreas de trabalho:
- gestão e coordenação;
- desenvolvimento da plataforma web e do sistema de informação;
- boas práticas e capacitação;
- grupos focais;
- sistemas de monitorização;
- comunicação alargada.
Esta estrutura permitiu conceber, desenvolver, validar e implementar um ecossistema digital interoperável, capaz de integrar dados provenientes de sistemas oficiais, registos clínicos, sistemas de gestão das explorações, monitorização ambiental e outras fontes relevantes, transformando-os em indicadores, dashboards interativos e ferramentas de apoio à decisão para médicos veterinários, produtores e decisores.
O plano previu, em paralelo, a conceção e implementação de um sistema integrado de boas práticas, apoiado em Planos de Ação personalizados para as explorações participantes, com acompanhamento regular através de visitas bimestrais e momentos periódicos de revisão. Esta componente foi complementada por ações de formação, workshops e atividades de capacitação técnica, dirigidas a médicos veterinários, produtores e outros intervenientes, com o objetivo de promover a adoção de práticas de utilização prudente de antimicrobianos, reforço da biossegurança, melhoria do bem-estar animal e prevenção da doença.
Em termos de resultados operacionais, o Plano de Ação definiu metas mensuráveis associadas à redução da incidência das principais patologias consumidoras de antimicrobianos, à diminuição da proporção de fenótipos multirresistentes, à entrada em funcionamento pleno da plataforma USAM SuLei, à integração e interoperabilidade entre sistemas, à execução dos Planos de Ação, à produção de um Guia Integrado de Boas Práticas e à realização de ações de educação para Uma Só Saúde.
Foram ainda previstos indicadores padronizados de monitorização do consumo de antimicrobianos, nomeadamente DDDvet e DCDvet, de acordo com as orientações da Agência Europeia de Medicamentos.
No seu conjunto, o Plano de Ação constituiu o instrumento estruturante para assegurar a execução coerente do projeto, a monitorização do progresso, a validação das soluções desenvolvidas em contexto real e a produção de resultados com aplicabilidade prática, relevância setorial e potencial de apoio à definição de políticas públicas.
- Pontos de situação / Resultados:
Documentos:
Resultados finais USAM SULEI Metas CR 26














