PAGE: Paisagens Agrícolas e Alimentares com Gerações de Mulheres Inovadoras
- Entidade líder do projeto: Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viseu (IPV - ESAV
- Responsável pelo projeto: Cristina Amaro da Costa
- Site do projeto: Visitar sítio Web
- Parceiros:
- Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do centro
- Pólos de Inovação de Coimbra e Viseu
- Associação de Jovens Agricultores de Portugal (AJAP)
- ACTUAR - Associação para a Cooperação e o Desenvolvimento, em representação do Centro de Competências de Agricultura Familiar e Agroecologia (CeCAFA)
- Vagari – PME
- Ervital – PME
- Virtudes Outonais – PME | Jovem Agricultor
- Vanessa Andrade – PME | Jovem Agricultor
- Sandra Filipa Amaral – PME | Jovem Agricultor
- Sebastião Machado – PME | Jovem Agricultor.
- Breve descrição:
O PAGE – Paisagens Agrícolas e Alimentares com Gerações de Mulheres Inovadoras é um projeto financiado pelo PRR que visa a valorização e revitalização de paisagens agrícolas e alimentares singulares em Portugal, através da mobilização do conhecimento local, da inovação social e do reforço do papel de mulheres e jovens enquanto agentes centrais de transformação dos territórios rurais.
Desenvolvido em territórios-piloto como a Serra da Estrela, Barroso e Serra de Serpa, o projeto assenta na identificação, preservação dinâmica e valorização dos sistemas alimentares tradicionais, promovendo a articulação entre saberes locais, memória biocultural e conhecimento técnico-científico.
Para esse efeito, o PAGE estruturou-se em três grandes eixos de intervenção:
- (i) produção de conhecimento territorial através de diagnósticos participativos e análise de redes;
- (ii) desenvolvimento de territórios rurais inteligentes, com recurso a plataformas digitais, ferramentas de apoio à inovação e processos colaborativos;
- (iii) promoção da diversificação económica, através de programas de capacitação, mentoria e apoio à criação de novos negócios e iniciativas económicas.
Através de uma abordagem participativa e multiator, o projeto contribui para a construção de redes locais, a valorização de produtos e serviços associados às paisagens alimentares, e a criação de condições para o desenvolvimento de economias rurais mais sustentáveis, inclusivas e resilientes.
O PAGE reforça assim a ligação entre conhecimento, inovação e ação territorial, promovendo a coesão social e a fixação de população nos territórios rurais, com especial enfoque na dinamização de oportunidades lideradas por mulheres e jovens.
- Identificação do problema ou oportunidade que se propõe abordar:
Problema: Portugal dispõe de um património agrícola e alimentar valioso. Porém, vários fatores contribuem para a sua perda acelerada, nomeadamente a transformação agrícola, urbanização, incêndios florestais, em particular em resultado da desertificação humana do interior do país associada à perda de práticas tradicionais e de agricultores e outros agentes essenciais à manutenção dos territórios. Contudo, a produção agro-pecuária e a alimentação são ainda determinantes da paisagem e podem ser muito relevantes para o desenvolvimento territorial pelo seu contributo para um conjunto vasto de atividades associadas e conexas.
Como sublinha Figueiredo et al. (2022), as atividades relacionadas com o turismo – incluindo a gastronomia, prova e aquisição de produtos agroalimentares locais e tradicionais – representam ativos importantes no contexto rural, crescentemente valorizados pela sociedade e contribuem para revalorizar a produção agrícola local e promover o desenvolvimento sustentável das comunidades rurais. Desde 2000, procura-se reafirmar a necessidade de proteger e salvaguardar a gastronomia portuguesa enquanto “bem imaterial do património cultural de Portugal”. No mesmo sentido, alguns sistemas agrícolas, nomeadamente na região do Barroso, foram classificados como "património da humanidade” pela FAO.
Mas, se estes sistemas agrícolas tradicionais, seus produtos e serviços são cada vez mais importantes nas escolhas dos consumidores, tal peso não corresponde aos benefícios económicos para os territórios do interior do país onde se localiza maioritariamente este património. São territórios com maiores taxas de emigração, maior envelhecimento populacional e menor desenvolvimento socioeconómico geral. São também, mais marginais ao desenvolvimento de cadeias alimentares globalizadas, registam menor capacidade de criação de redes de cooperação entre atores relevantes, de plataformas inovativas para a comercialização de produtos e serviços vinculados aos novos elos rurais – urbanos.
Oportunidade: São, contudo, territórios cujos sistemas agrícolas e paisagens alimentares devem preservar-se dinamicamente possuindo, também, potencial para a geração de negócios inovadores face aos critérios de qualidade que os seus produtos e serviços encerram. Para isso torna-se necessária a identificação e sistematização do conhecimento tradicional existente nos sistemas agrícolas e alimentares destes territórios, a promoção da inovação associada aos mesmos, a sua transmissão inter-geracional e a construção de capital social para a sua promoção e comercialização através de uma rede multi-atores local composta por produtores, transformadores, empresários/as da restauração, alojamento e hotelaria, artesanato, cultura, animação turística, têxtil entre outros.
Importa sublinhar que as mulheres e os jovens surgem como principais atores com um potencial de inovação diferenciado. Se, por um lado, as mulheres são maioritariamente as principais "guardiãs" deste património, ainda que de forma muitas vezes ‘invisível’, são elas também mais propensas à liderança de negócios mais pequenos, mais familiares assentes nas suas histórias de vida. São também as mulheres as principais transmissoras do conhecimento tradicional alimentar. Os jovens, ao mobilizar no contexto da identificação de novas oportunidades assentes neste património, serão mais propensos à inovação e ao risco e, assim, a assumir e gerar mais negócios e emprego. É, assim, essencial associar esta iniciativa a processos de inovação protagonizados por mulheres e jovens.
Três abordagens são particularmente úteis para este projeto: ecossistémicas, sociais e culturais, evidenciando que sistemas agrícolas e paisagens alimentares são multidimensionais e socialmente construídas. Estudos recentes indicam como prioridades para uma estratégia de valorização destes sistemas e suas paisagens: (1) enfatizar os alimentos produzidos localmente; (2) criar narrativas para produtos e serviços que imprimam memórias; (3) gerar inovação a partir da co-criação de conhecimento. Isto potencia oportunidades de negócio baseados em produtos e serviços inovadores e singulares que traduzem o autêntico, único, local, saboroso, saudável e sustentável. Por outras palavras, traduzir o conhecimento tradicional acumulado no processo de construção social desses sistemas e paisagens, em experiências enraizadas e enraizadoras para segmentos de mercado crescentemente influenciados por uma pós-modernidade global e desterritorializada.
- Objetivos visados:
Contribuir para revitalização dos territórios rurais, através da dinamização a partir de paisagens agrícolas e alimentares singulares e do conhecimento associado, em particular mobilizando mulheres e jovens para os territórios em causa.
- Sumário do plano de ação:
O projeto estruturou-se em três grandes blocos de atividade, visando a valorização das paisagens agrícolas e alimentares singulares, a promoção da inovação liderada por mulheres e jovens e a diversificação económica dos territórios rurais.
Bloco 1 – Conhecimento (LA 7.2): Este bloco centra-se na produção de conhecimento aplicado sobre os sistemas alimentares e as paisagens agrícolas e alimentares singulares dos territórios-piloto, criando as bases para processos de inovação territorial.
A atividade A1.1 – Diagnósticos territoriais e análise de redes territoriais, permite caracterizar os sistemas alimentares locais através de diagnósticos participativos, identificação de recursos territoriais, reconstrução de narrativas históricas e mapeamento das redes de atores e relações existentes.
A atividade A1.2 – Conservação dinâmica e valorização das paisagens alimentares, contribui para a identificação de ações prioritárias para a conservação dinâmica das paisagens alimentares singulares e para o desenvolvimento de processos participativos de garantia da qualidade, assentes na melhoria contínua, supervisão entre pares e valorização coletiva dos produtos e serviços territoriais.
A atividade A1.3 – Matriz de fatores promotores de inovação e conservação de conhecimento, permite identificar e sistematizar fatores que favorecem a inovação e a transmissão de conhecimento entre mulheres, jovens e comunidades rurais, apoiando futuras iniciativas empresariais e processos de inovação territorial.
Bloco 2 – Territórios Rurais Inteligentes (LA 7.5): Este bloco foca-se na transformação do conhecimento produzido em ferramentas e dinâmicas capazes de reforçar a inteligência territorial, a cooperação e a inovação local.
A atividade A2.1 – Plataforma e caixa de ferramentas para criação de novos negócios, promove a dinamização de redes locais de produtos e serviços inspiradas no modelo FoodZcapes, apoiando estratégias coletivas, ações de marketing territorial e mecanismos participativos de garantia da qualidade. Paralelamente, foi desenvolvida uma caixa de ferramentas destinada a apoiar a criação e consolidação de iniciativas económicas inovadoras.
A atividade A2.2 – Coletivos I (Intelligence & Innovation), contribui para a mobilização de mulheres e jovens inovadores através da recolha de histórias de vida, da análise participativa de cenários futuros e da co-criação de processos colaborativos de inovação. Estes coletivos funcionam como espaços de aprendizagem, experimentação e desenvolvimento de soluções para os desafios dos territórios rurais.
Bloco 3 – Diversificação Económica (LA 7.6): O terceiro bloco procura traduzir os resultados obtidos nas fases anteriores em novas oportunidades económicas, reforçando a atratividade e a sustentabilidade dos territórios.
A atividade A3.1 – Programa para criação de novos negócios e plataformas de comercialização, concebe ferramentas, produtos, roteiros e plataformas de comercialização de bens e serviços, incluindo ofertas ligadas ao turismo e à valorização do património alimentar.
A atividade A3.2 – Comunicação, capacitação técnica, valorização e difusão do conhecimento, assegura a comunicação do projeto, a capacitação dos atores locais e a disseminação dos resultados alcançados. Foram realizadas ações formativas, oficinas de intercâmbio de conhecimentos, produzidos materiais técnicos e científicos e promovidos eventos de partilha e valorização dos resultados, contribuindo para a sua replicação noutros contextos territoriais.
- Pontos de situação / Resultados:
O projeto PAGE alcançou os objetivos definidos nas três Linhas de Ação (Conhecimento, Territórios Rurais Inteligentes e Diversificação Económica), consolidando uma abordagem integrada de valorização das paisagens agrícolas e alimentares singulares, assente na participação dos atores locais, na inovação social e na capacitação de mulheres e jovens enquanto agentes de transformação territorial.
No domínio do Conhecimento (LA 7.2), foram produzidos diagnósticos territoriais participativos que permitiram caracterizar sistemas alimentares locais, identificar recursos, atores e redes, e construir narrativas históricas partilhadas sobre os territórios. Este trabalho resultou na criação de instrumentos metodológicos replicáveis, incluindo um manual de diagnóstico territorial, planos de ação para a conservação dinâmica das paisagens alimentares e modelos de Sistemas Participativos de Garantia (SPG) adaptados aos contextos locais. Paralelamente, foi desenvolvida uma Matriz de Conhecimento e Memória Biocultural que sistematizou fatores promotores de inovação e conservação de conhecimento, integrando dimensões sociais, ecológicas e económicas e reforçando a ligação entre conhecimento, ação e decisão.
No âmbito dos Territórios Rurais Inteligentes (LA 7.5), o projeto transformou o conhecimento produzido em ferramentas e dinâmicas operacionais. Destaca-se o desenvolvimento e teste da Plataforma PAGE e respetiva Caixa de Ferramentas, que integram diagnósticos territoriais, metodologias de valorização territorial, SPG e instrumentos de apoio à criação de iniciativas económicas. Foram igualmente dinamizados os Coletivos I² (Intelligence & Innovation), envolvendo mulheres e jovens em processos de aprendizagem coletiva, análise de cenários, co-criação e experimentação. Estas ações contribuíram para reforçar o capital social, a colaboração entre atores e a governação participativa, ao mesmo tempo que deram maior visibilidade ao papel das mulheres e dos jovens na inovação rural.
Relativamente à Diversificação Económica (LA 7.6), o projeto criou condições para apoiar a criação e consolidação de novos negócios e iniciativas económicas ligadas às paisagens alimentares singulares. Foram desenvolvidos programas de capacitação e mentoria, instrumentos metodológicos de apoio ao empreendedorismo e mecanismos de qualificação participativa que reforçam a credibilidade e diferenciação dos produtos e serviços locais. Em paralelo, foi implementada uma estratégia de comunicação e disseminação que incluiu materiais técnicos e científicos, conteúdos audiovisuais, eventos públicos, ações com escolas e atividades de intercâmbio, contribuindo para a valorização dos resultados e para a sua apropriação pelos territórios.
Globalmente, o PAGE permitiu construir um conjunto coerente de ferramentas, metodologias e redes de colaboração que reforçaram a capacidade de inovação dos territórios rurais. Entre os principais resultados alcançados destacam-se: a produção de conhecimento territorial validado localmente; a criação de instrumentos de conservação dinâmica e qualificação participativa; o fortalecimento de redes multiatores; a valorização do papel de mulheres e jovens; o desenvolvimento de plataformas e ferramentas digitais de apoio à inovação; e a disponibilização de programas de capacitação, mentoria e comunicação passíveis de replicação noutros contextos.
A avaliação do projeto evidencia que os desafios identificados se relacionam sobretudo com a necessidade de assegurar continuidade, aprofundar mecanismos de governação colaborativa e reforçar o acompanhamento de iniciativas emergentes. Neste contexto, os resultados alcançados demonstram a pertinência de uma fase subsequente de consolidação, orientada para o aprofundamento dos Sistemas Participativos de Garantia, a expansão das redes territoriais, o reforço dos programas de mentoria e a valorização económica e turística das paisagens alimentares singulares. Esta continuidade permitirá transformar os instrumentos e metodologias desenvolvidos em impactos económicos, sociais e territoriais mais duradouros, contribuindo para territórios rurais mais resilientes, inclusivos e inovadores.














